Análise: Leitura Técnica e Tática de Chris Weidman x Kelvin Gastelum

Kauê Macedo analisa a luta entre Weidman e Gastelum
(Foto: Esther Lin/MMAFighitng.com)

(Foto: Esther Lin/MMAFighitng.com)

No último sábado, o UFC foi pela quinta vez até o estado de Nova Iorque realizar mais um bom evento. Na luta principal, foco do artigo, o ex-campeão Chris Weidman estreou sua cidade, Long Island, para fazer uma das lutas mais importantes de sua vida contra o talentosíssimo Kelvin Gastelum, que buscava a maior vitória da carreira. Hoje, analisaremos vários detalhes técnicos e táticos que ditaram o rumo da luta.

 

Sabendo da vantagem que tinha sobre a envergadura do Gastelum, Chris Weidman focou em manter a luta em pé sempre da média para a longa distância, onde tinha muito mais facilidade em manter o adversário fora do seu raio de ação. Isso somado ao bom timing que Weidman tem para cortar o octógono e encurtar a distância, como mostrou na luta contra o ex-campeão peso meio-pesado Lyoto Machida, geraram uma boa receita para, no mínimo, fazer uma trocação de igual para igual com o campeão do TUF 17.

O ex-campeão peso médio do UFC fez um bom trabalho de pernas durante a luta, variando entre movimentação lateral, que servia defensivamente para não se tornar um alvo fácil e estático na frente do adversário e ofensivamente para não ser um atacante previsível e poder encontrar novas brechas no sistema defensivo de Gastelum, e movimentação linear para frente, investindo, de forma comedida, em linha reta, colocando pressão, encurtando a distância e tendo espaço para buscar ângulos dentro do raio de ação do oponente.

Sabendo da queda de rendimento que Weidman costuma ter na parte final de seus combates, Gastelum possivelmente buscou lutar num ritmo mais lento nos primeiros rounds para ter um poder de explosão maior na segunda metade da luta e ter uma boa vantagem sob o adversário. Gastelum costuma ser bem ativo em suas lutas, sabe colocar pressão e nunca deixa seus adversários ficarem confortáveis, mas, para aplicar a estratégia citada no início do parágrafo, ele teve, de certa forma, que abrir mão dessa segunda parte. Acabou que a luta sequer chegou ao final do terceiro round e Gastelum não conseguiu tirar muito proveito da vantagem cardiovascular que tinha, mas é muito difícil, para não dizer equivocada, afirmar que isso foi um planejamento tático mal feito por parte dos treinadores, que conta com o excelente Rafael Cordeiro, ou mal executado por parte do lutador, essa situação foi muito mais mérito do Weidman do que falha de Gastelum e sua equipe.

Ao contrário de como foi na luta contra Lyoto Machida, Weidman não buscou tanto o controle do centro do octógono para deixar Gastelum de costas para a grade, o que, de certa forma, não condiz com seu estilo de pressure fighter. É difícil manter um ritmo de pressão de forma eficiente durante cinco rounds, provavelmente tenha sido por isso que Weidman trabalhou mais a área do octógono e circulou mais por ela do que de costume, principalmente porque Gastelum tem vantagem nessa área, como foi explicado anteriormente, e o ex-campeão, de forma inteligente, resolveu não correr o risco.

Em sua maioria, os golpes de Chris Weidman foram longos e retos, como jabs, diretos e suas variações, que o permitiam entrar, bater e sair com facilidade graças a sua boa vantagem na envergadura. Gastelum variava mais nos golpes e sempre buscava por trabalhar o cruzado de direita (a mão da frente na sua base de canhoto), mas Weidman fez um bom trabalho defensivo ao aplicar repetidamente o hand trap na mão dianteira do adversário, que, entre outros fatores, tira muito da noção de tempo e distância do lutador.

Mesmo com o vice-campeão olímpico Yoel Romero no meio, Chris Weidman é aquele que melhor aplica o wrestling no MMA em toda a divisão dos pesos pesados. Apesar da erro fatal que cometeu na luta contra o cubano, quando entrou em queda de forma totalmente previsível e engoliu uma das joelhadas mais brutais de 2016, Weidman tem um timing de quedas muito bom e quedou absolutamente todos os adversários que enfrentou até hoje. Com isso em conta, dificilmente seria Kelvin Gastelum que sobreviveria ao jogo de quedas do nova-iorquino.

Gastelum conseguiu defender quase a metade das quedas, mas mesmo assim foi quedado sete vezes em pouco menos de quatorze minutos de luta, praticamente uma queda a cada dois minutos. Weidman abusou da vantagem técnica no wrestling e aplicou variados tipos de quedas, como single legs, double legs e várias quedas através do clinch oriundas do folk wrestling. Pelo menos no wrestling, defensivamente Gastelum pouco teve a oferecer.

 

Apesar da superioridade no número de golpes conectados no primeiro round, sejam eles significativos ou não, sendo 13 golpes significativos conectados de 20 lançados (precisão de 65%) e 14 golpes totais conectados de 22 lançados (precisão de 64%) de Gastelum contra 9 golpes significativos conectados de 25 lançados (precisão de 36%) e 16 golpes totais conectados de 35 lançados (precisão de 64%) de Weidman, o ex-campeão levava vantagem no round. O maior volume de golpes (contando os não conectados) de Weidman poderia até enganar os desatentos, mas não foi isso que deu a vantagem, e sim a luta agarrada, onde Chris aplicou duas boas quedas e conseguiu um bom controle posicional por cima durante quase dois minutos. Porém, entre os critérios de avaliação para pontuar um round, a contundência dos golpes conta muito, e foi com isso que Gastelum roubou o primeiro round, justamente ao aplicar um direto de esquerda brutal em Weidman, que foi a knockdown e recebeu uma sequência brutal de golpes enquanto não conseguia levantar.

Gastelum teve um bom desempenho no primeiro minuto, mas o segundo round foi de domínio do adversário. Weidman colocou Gastelum de costas para o chão em três oportunidades diferentes, teve uma superioridade gigantesca no número de golpes conectados e controlou a luta no grappling durante quase quatro minutos. A diferença para o terceiro round, descontando o fato do mesmo não ter chegado ao fim, foi menor, mas deu no mesmo, com Weidman quedando duas vezes, conectando mais golpes e tendo um ótimo tempo de controle no solo. A tendência é que, se a finalização não tivesse acontecido, a luta iria para o quarto round com uma vantagem de um ponto (29-28) para o único homem a ter nocauteado Anderson Silva.

A luta no solo foi bem interessante e, se não me falha a memória, pela primeira vez Chris Weidman não trabalhou com jiu-jitsu puro (descontando, obviamente, o ground and pound) e utilizou vários elementos do wrestling, assim como Cain Velasquez faz muito bem. Anteriormente, tínhamos visto Weidman perdeu a posição nas costas do adversário e acabar ficando em desvantagem na posição, isso aconteceu, por exemplo, contra aquele que lhe tirou o cinturão, Luke Rockhold. Em várias ocasiões diferentes nessa luta, Weidman tinha a chance clara de avançar para as costas de Gastelum, mas ele sempre evitou fazer isso, mantendo, no máximo, somente um gancho no adversário.

Essa mudança foi fundamental para que Weidman terminasse uma luta que durou quatorze minutos com quase oito minutos de controle posicional no grappling. Gastelum tem um jiu-jitsu bem afiado e mostrou isso nas inversões que deu em Tim Kennedy ou na belíssima finalização que aplicou em Jake Ellenberger, e Weidman e sua equipe fizeram um trabalho fantástico em nerfar essa qualidade do oponente.

O caminho para a finalização foi muito interessante e merece uma análise ainda mais densa do que fizemos até aqui. Vamos analisá-la passo a passo, desde antes do momento chave.

1) Weidman está por trás de Gastelum, mas sem pegar as costas do adversário.

2) Gastelum tenta raspar e inverter a posição (A), mas Weidman não estava com os dois ganchos encaixados (B).

3) A transição falha e Weidman continua por cima, onde volta imediatamente a pesar a parte superior do tronco de Gastelum contra o chão (A), impossibilitando que ele possa se levantar.

4) E Weidman então volta a posição em que estava, tendo completo domínio da luta no momento.

 

Foi logo em seguida e numa posição parecida que o triunfo de Weidman veio a tona.

1) Weidman estava por cima, nas costas de Gastelum, mas, novamente, sem os ganchos. O trabalho que fez com as mãos foi importantíssimo, com a direita, controlava o punho de Gastelum (A), prejudicando drasticamente o sistema defensivo do adversário, e com a esquerda, controlava a parte superior do tronco do adversário (B), lhe dando maior controle da posição e impossibilitando que Gastelum mudasse de posição.

2) Weidman, então, coloca pressão e peso no tronco de Gastelum e o coloca mais próximo do chão (A).

3) Com sua mão direita, Weidman rapidamente abre mão de parte do controle posicional para encaixar o clássico “mão com mão” e começar a desenvolver o movimento para finalizar.

4) Em seguida, Chris encaixa sua cabeça ao lado do braço esquerdo de Gastelum, começa a colocar pressão para baixo e alcança a posição do katagatame.

Dali em diante, Weidman fez um trabalho perfeito, afastando seu quadril e mantendo a pressão, sem se matar de fazer força como Brock Lesnar fez contra Shane Carwin. Foi questão de tempo até que o oxigênio no cérebro de Gastelum chegasse perto de se esgotar o jovem prospecto batesse em desistência.

Performance excelente de Chris Weidman contra um adversário de altíssimo nível. Com as três derrotas recentes que sofreu em sequência, era natural que muitos começassem a superestimar o ex-campeão, mas quem assistiu atentamente suas lutas contra Rockhold, Romero e Mousasi perceberam que, apesar de três nocautes, em nenhuma das lutas ele teve um mal desempenho, apenas erros técnicos. Weidman venceu rounds contra os três que o derrotaram, além de conseguir feitos importantes como quedar o wrestler olímpico Yoel Romero, pegar as costas do faixa-preta de jiu-jitsu Luke Rockhold e montar no faixa-preta de judô Gegard Mousasi.

Apesar de ter chamado Michael Bisping, Weidman ainda está longe do cinturão e deve ser posto no seu lugar, que ainda é no top 5, e não contender nº 1. Quem também está nessa situação é o brasileiro Ronaldo Jacaré, com o qual poderia protagonizar um embate bem interessante.



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Bacharelando em Jornalismo, Analista de MMA e boxe no PitacoEsportivo.com e Nocaute na Rede. Contatos: [email protected] (via e-mail) e @kauemcd (via Twitter)
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