Análise Técnica e Tática de Vicente Luque vs. Mike Perry

Kauê Macedo analisa Vicente Luque vs. Mike Perry
Foto: Reprodução

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Com 9 vitórias nas últimas 10 lutas no UFC, é surpreendente como Vicente Luque ainda está longe do top 10 na categoria peso meio-médio. Com quatro nocautes consecutivos, o brasileiro enfrenta um dos maiores desafios de sua carreira, o americano Mike Perry.

Agressivos e contundentes como poucos na categoria, esses dois lutadores devem protagonizar a melhor e mais intrigante luta da noite.



A luta é a co-principal do UFC Fight Night 156, que acontece nesse sábado, 10 de agosto, às 18h (horário de Brasília), na Arena Antel, no bairro de Villa Española, Montevidéu, Uruguai. É o primeiro evento na história do UFC a ser realizado no Uruguai.

Esse texto contém uma leitura técnica e tática da luta e visa auxiliar apostadores e promover a análise e o entendimento técnico do MMA para todos os admiradores de esportes de combate.

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Vicente Luque

Vicente tem algumas variações no seu jogo de distância, mas passa a maior parte do tempo lutando na média. Partindo da média distância, Luque tenta controlar o centro do octógono e ir aumentando gradualmente a intensidade de sua pressão conforme seu ringcraft avança.

Quando tem o adversário perto ou com as costas na grade, ele aumenta consideravelmente seu volume de golpes e sua potência, aplicando combinações que deixam algumas brechas para contragolpes, mas que é significativamente contundente.

Quando não está tendo esse controle do centro do octógono, Luque faz algumas variações curtas para a longa distância, combinadas com algumas passadas laterais, sempre em busca de evitar os golpes do adversário e encontrar novas aberturas para voltar a aplicar seu jogo de pressão na trocação.

Nessa situação de variar da média para a longa distância, Vicente coloca em jogo seus contragolpes. As principais armas nessas ocasiões são o cruzado de esquerda e o cross de direita.

Seu cruzado de esquerda é aplicado, geralmente, em resposta à diretos ou outros golpes de direita do adversário (partindo do pressuposto que sua base seja de destro), e não precisam ser aplicados com muita força para ter resultados contundentes.

O cross de direita é possivelmente o contragolpe mais antigo da história dos esportes de combate, e Vicente o aplica com frequência. Apesar de acabar engolindo jabs por causa dessa frequência, ele consegue sair em vantagem pela contundência do seu golpe, que é bem mias potente que o golpe reto do adversário.

Luque tem o hábito defensivo de cobrir a parte frontal do rosto com as duas mãos, o que bloqueia totalmente qualquer tentativa de golpes longos e retos, como jabs e diretos, e uppercuts, mas que o deixa muito aberto para golpes em curva, como cruzados e overhands.

Esse tipo de guarda prejudica muito a visão e limita a capacidade de desferir contragolpes com uma velocidade decente, além de deixar o corpo completamente aberto para receber golpes de todos os tipos.

Uma ótima forma de tirar muito proveito desse sistema defensivo de emergência de Luque (guarda cobrindo a parte frontal do rosto com as duas mãos) é colocando pressão na curta distância, variando cruzados na cabeça e variações no corpo, sempre em combinações e com contundência.

Isso sem contar que contribui muito para que o adversário entre em queda, mas até agora ninguém teve nível técnico no jiu-jitsu o suficiente para rolar com Vicente Luque no octógono.

O sistema defensivo na trocação realmente não é seu forte, mas até o momento pouquíssimos souberam tirar proveito o suficiente dessa defasagem para vencê-lo. O único nos últimos quatro anos a vencê-lo foi Leon Edwards, atual número 4 da categoria no ranking oficial do UFC e um potencial futuro desafiante ao cinturão.

O jiu-jitsu de Vicente Luque é muito bom tanto ofensiva quanto defensivamente. Derrick Kratz conseguiu boas posições sobre Luque e realizou algumas tentativas de finalização, mas todas foram bem defendidas e com muita tranquilidade.

Ofensivamente, Luque tem um controle posicional por cima no solo muito bom e agressivo, com ground n’ pound violento e muito contundente. O pouco utilizado arsenal de finalizações é muito bom e já lhe garantiu finalizações por estrangulamentos não tão básicos, mas se o grappling tivesse mais importância em suas estratégias, ele definitivamente seria um lutador melhor.

Mike Perry

Mike Perry é um lutador bem agressivo e contundente, todo o seu arsenal ofensivo se desenvolve a partir disso.

Ele luta da média distância e com uma postura pouco curvada, o suficiente para não ficar totalmente exposto à tentativas de quedas. A guarda fica sempre alta, pronta para trocar de forma franca.

Para atacar, Perry sai da média distância de maneira brusca, deixando seus golpes claros desde o início da primeira passada. Isso faz com que seus golpes sejam previsíveis possam abrir brechas para contragolpes ou clinch, mas quando isso não acontece, os golpes são aplicados com tanta força que fazem valer o risco para um atleta de seu estilo.

A variação de golpes é boa, Perry é um ex-pugilista profissional e tem uma boa noção de golpes, mas não os aplica da melhor forma. É comum vê-lo sair da média distância iniciando a combinação com um direto que não chega perto sequer da guarda do adversário e que é seguido por um simples jab, sem precisão e com pouco efeito.

O clinch é bem sólido, principalmente defensivamente. Perry tenta manter sua postura alta e não deixar o adversário manter a base muito baixa, o que diminui as possibilidades de tentativas de quedas a partir de ataques nas pernas, como single e double legs.

Apesar de defender uma parte, essa postura deixa espaço para que ambos trabalhem socos, joelhadas e cotoveladas. Além disso, essa posição deixa espaços para quedas oriundas do judô, por exemplo, algo que ninguém ainda explorou contra Perry.

Seu jogo de chão é bem limitado e isso já foi exposto previamente. Quando enfrentou Donald Cerrone e teve a péssima ideia de levar a luta para o chão, a diferença técnica era tão grande que parecia um faixa-preta rolando com um faixa-azul.

Análise Tática

Essa luta será ditada por quem conseguir impor o ritmo de luta. Pode parecer algo óbvio e que se aplica a todas as lutas, mas não é. Ambos são lutadores de pressão, que gostam de controlar o centro do octógono e golpear com contundência os adversários acuados na grade.

Apesar da intenção, é improvável que algum dos dois lutadores consiga impor esse ritmo com perfeição, principalmente porque haverá retaliação muito forte como resposta de ambos os lados, pois até defensivamente eles tem um lado agressivo.

O controle da distância deve ficar por parte de Luque, que é maior e tem mais facilidade em jogar da média distância com variações para a curta. A contundência dos golpes deve ficar com Perry, que é mais agressivo e fisicamente mais forte, além de colocar muita potência em seus golpes, coisa que o brasileiro, apesar de nocauteador, nem sempre faz.

O volume de golpes é uma das maiores incógnitas da luta. No papel, essa vantagem é de Luque, mas Perry tem nível técnico para responder a altura uma trocação de puro boxe com o brasileiro. A manutenção de distância e o trabalho de pernas de Luque devem fazer a diferença e ter vantagem nesse quesito por uma breve margem.

Perry ataca de forma muito bruta e pouco se preocupa com a defesa, o que pode ser fatal contra alguém com bons contragolpes como Vicente Luque.

É no jiu-jitsu que está a maior disparidade de todo o combate, Vicente Luque é muito mais técnico que Perry e terá muita vantagem se a luta for parar no chão. Inclusive, é capaz que seja vantajoso até mesmo se o brasileiro cair por baixo.

O grande problema é que Luque está muito confiante na trocação e não demonstra mais interesse em levar a luta para o chão e trabalhar seu jiu-jitsu. Nas últimas lutas, só vimos o jogo de chão de Luque ou tentativas de finalização de sua parte por acaso, e não a partir de uma queda aplicada por iniciativa própria.

Vicente Luque é o melhor lutador nesse confronto, mas acredito que essa vantagem não ficará tão nítida durante a luta devido a suas escolhas de dar preferência à trocação. Deve ser bem dura e parelha, podendo ir para qualquer lado e a qualquer momento.

Os problemas defensivos de ambos fazem com que as chances da luta chegar à decisão diminuam, mas, levando em consideração a durabilidade de ambos, arrisco dizer que não veremos um nocaute nessa luta.

Prognóstico: Vicente Luque



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LutasMMA InternacionalUFC

Bacharelando em Jornalismo, Analista de MMA e boxe no PitacoEsportivo.com e Nocaute na Rede. Contatos: [email protected] (via e-mail) e @kauemcd (via Twitter)
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