EXCLUSIVO: Entrevista com o rei do Lethwei na atualidade, Dave Leduc.

Maior nome de um dos esportes mais brutais da atualidade, o multi campeão de Lethwei Dave Leduc é o nosso entrevistado da semana.

Quando falamos em esportes de combate, automaticamente muita gente leva seu pensamento diretamente para o Ultimate Fighting Championship. Porém os combates na história da nossa civilização sempre foram marcados por brutalidade, e não regras esportivas, e esse é o caso do esporte de combate ancião da Birmânia ‘Lethwei‘. Originário dessa longínqua terra, essa arte marcial tem as cabeçadas permitidas em seu conjunto de técnicas e os lutadores não usam luvas. Nessa jornada surge o canadense Dave Leduc, que não só desbravou a Birmânia, se tornou um dos maiores nomes desse esporte da antiguidade derrotando seus próprios nativos do esporte em suas regras, além de ser adotado pelo governo local derivado de suas apresentações de galã em Myanmar. Nessa entrevista da semana pelo Nocaute na Rede, o multi campeão de Lethwei falou sobre diversos temas, desde o tipo de treinamento para esse esporte diferente, sobre sua presença como um embaixador de Myanmar com o Lethwei ao mundo, controvérsias sobre Buakaw ter aparecido na Birmânia, até a busca por patrocinadores esportivos nessa nuance especifica do striking.



NR: Vamos falar sobre o treinamento para as lutas de Lethwei, tem muita diferença para o treinamento porque existe a possibilidade cabeçada eminente, então nos fale como é se preparar para esse esporte diferente?

Leduc:  O treinamento desse esporte é muito diferente do Kickboxing, do Muay Thai e outros esportes de striking por exemplo…  Aqui no Lethwei, você precisa dar ênfase em não se machucar tanto, porque é diferente lutar sem luvas. Nessa situação, qualquer golpe pode gerar cortes, consequentemente fluxo de sangue nos cortes e as cicatrizes podem ser cruciais para uma derrota. O movimento de cabeça deve ser muito levado em consideração, e o treinamento para isso muito específico, a região do pescoço deve ser muito levada em conta também porque se você uma cabeçada, a área do pescoço bem treinada e o movimento de cabeça pode te ajudar a absorver impactos. Obvio que treino todas as áreas do corpo, como a cintura principalmente, focando na geração de poder nos golpes. O clinch também é muito diferente do Muay Thai, pois os thai boxers tem uma pegada diferente na hora de te golpear nessa região, aqui no meu esporte, se você errar pode tomar uma cabeçada e ser o fim de uma luta… No Lethwei, a noção do perigo em relação a cabeçada deve ser levado muito em consideração. Alguns lutadores da Tailândia já fizeram essa migração para o Lethwei, alguns campeões como o Sayok, foi um que migrou bem para essa regra, lutei com ele no Japão por um titulo e venci no segundo round, mas basicamente eles fazem uma boa transição, eles tem uma vantagem porque não tem as mesmas lesões dos birmaneses, aqui eles nascem desde pequeno com as cabeçadas e as mãos nuas. O Lethwei é o único esporte que você luta sem luvas e com cabeçadas, e isso torna o esporte real. É maravilhoso para mim lutar nessas regras.

NR: O Lethwei tem sua ênfase na Birmânia (Myanmar), uma terra bem distante. Então nos fale como funciona a situação dos patrocinadores, foi difícil de conseguir em primeiro momento ? É como nos outros esportes de combate? Sei que uma época a Tiger Muay Thai te ajudou no início, então nos fale sobre esse tema…

Leduc: Muito boa pergunta. Digo nessa hora que é isso que torna a midia importante. Não importa onde a luta vai acontecer, mas você precisa dar a exposição para as empresas nas mídias sociais. Eu tenho patrocinadores em Dubai e tenho patrocinadores no Japão, então não importa muito onde a luta vai acontecer. Importa eu trazer o publico para ver os meus patrocinadores. É importante dizer que eu estou aqui na Birmânia porque eu sempre quis isso. Minha meta nunca foi lutar Muay Thai, foi apenas um acidente de percurso, obviamente seria mais fácil treinar na Tiger Muay Thai com toda a estrutura deles, na Birmânia não tem nada disso… Lá tinha meus amigos, a academia era muito boa. Mas vou te dizer, nunca gostei de treinar Muay Thai. Não dava muito importância porque eu não era um thai boxer, sempre mantive meu treinamento de Kung Fu (Patrick Marcil) e Lethwei. Quando ganhei minha primeira luta de Lethwei, era isso que eu queria fazer, a Tiger achava muito perigoso para mim, então fui la e dominei a luta… O resto se tornou historia. A Tiger me ajudou sim, me ajudou no início bastante, mas tecnicamente nunca aprendi nada do que eu já não sabia.

NR: O Lethwei tem regras diferenciadas dos outros esportes de combate, o que torna tudo muito difícil… Me fale qual foi sua luta mais difícil até o dado momento?

Leduc: Definitivamente minha luta mais difícil foi contra Thun Thun Min. Minha segunda e terceira luta foram contra ele. A primeira foi um empate, e na segunda ganhei o cinturão. A primeira luta foi muito boa, foi como lutar como uma lenda desse esporte, ele é a terceira geração do Lethwei, foi muito difícil e duro… O cara era uma pedra, e eu tinha 10 lutas no Muay Thai apenas, e ele muitas lutas no curriculum pelo Lethwei. Tive que me adaptar muito rápido porque precisava me proteger de combos de golpes que não estava acostumado, machuquei minha perna chutando, ele machucou os joelhos, usei muitos cotovelos e os cortes ajudaram bastante na performance. Foi uma luta dura e tenho agradecer, pois foi um passo na historia no Lethwei. No ultimo dezembro, foi a última luta com ele, essa era uma luta que representava a vingança para Thun, mas tive 2 anos para me preparar e ficar melhor. Não era mais o mesmo lutador das outras lutas e foi muito diferente, ele não conseguiu me tocar, consegui knockdowns com a cabeçada e com os cotovelos, foi muito bom para a historia da minha carreira. No lethwei é difícil lutar com eles, pq são menores e a cabeçada vem direta, mas certeza que são os lutadores mais duros do planeta.

NR: Alguns lutadores nascem para brilhar e ser muito famosos. Nos temos o Buakaw para o Kickboxing, o Saenchai para o Muay Thai e agora temos Leduc, a cara do Lethwei. Até Myanmar botou sua face estampada nas notas oficiais do pais, nos fale então sobre seus sentimentos nessa experiência.

Leduc: Gostei bastante disso. Saenchai para o Muay Thai, Buakaw para Kickboxing e Leduc para Lethwei. Isso faz muito sentido, eu acho que você nasce para isso, alguns tratam isso como destino, mas eu digo que fiz tudo para ser o melhor que posso nessa vida. Nasci diferente, treinei muito para isso, tenho mania de fazer tudo ao máximo quando quero alguma coisa, gosto muito de lutar nessa regra. O Muay Thai não me trazia esse sentimento de lutar de verdade, não era divertido, então quando comecei no Lethwei, eu estava tipo apaixonado realmente. Não precisava usar luvas, não tinha um sistema de pontos, os golpes eram livres envolvendo cabeçadas e tudo mais. Esse é o verdadeiro esporte, no Muay Thai você usa luvas, tem pontos, e o clinch é diferente. O Lethwei é o amor da minha vida, tenho uma extrema felicidade por ter sido acolhido e amado pelo governo e por esse pais como um filho. Meu sonho é trazer as pessoas para cá, e também espalhar o Lethwei pelo mundo inteiro. A economia do pais cresce com isso e eu quero ajudar essa terra que também é minha. Eu quero ajudar a vida das pessoas que moram nessa terra com o Lethwei. Minha missão é definitivamente passar o Lethwei para o mundo, é isso que eu faço e isso que me faz feliz.

NR: Um tempo atrás,  Buakaw apareceu por ai na Birmânia, e tivemos você falando sobre uma possível luta. Quais seus pensamentos sobre esse tema?

Leduc: Sim, essa historia aconteceu muito rápido , vi uma foto do Buakaw por aqui, minha casa, minha terra, tenho casas na Europa, no Chipre e aqui em Myanmar, mas aqui é meu lugar. Sinto na obrigação de proteger esse pais e esse esporte. Quando vi ele aqui, lutador de Muay Thai e um grande competidor, me senti ofendido… Postei uma mensagem: ‘Quando você vem a Myanmar, precisava me avisar, não desafio ninguém porque eu sou o campeão, mas se quiser lutar, vamos lutar.” Ele não esta acostumado com essa regra. Esse esporte é muito agressivo para ele, ele morreria nessa regra. As cabeçadas o matariam no clinch, eles não estão acostumado com isso no Muay Thai e no Kickboxing, aqui é diferente. Sou muito agressivo, resistente e forte para ele, então entendo o coach dele não querer a luta nessa regra. Porém depois podemos ver ele lutando nas regras do MAS Fighting na China, se ele lutar comigo nessa regra seria muito diferente, ele realmente sabe que perderia.

 

 



IBlackbelt
Categorias
EntrevistasEspeciaisLutas

Jornalista - seguidor dos esportes de combate desde 2006 - Fã de Shogun e Mousasi.
    Sem Comentários

    Responder

    *

    *

    quatro × um =

    RELACIONADO POR