Prévia: Análise Técnica e Tática de Zabit Magomedsharipov vs. Calvin Kattar

Kauê Macedo analisa Zabit Magomedsharipov vs. Calvin Kattar
Foto: Reprodução

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A saída de Júnior Cigano do UFC Moscou causou a promoção de uma das lutas mais interessantes do ano à evento principal: Zabit Magomedsaripov vs. Calvin Kattar. O confronto entre os dois promissores pesos penas é de uma qualidade muito acima da média, o talento envolvido e as possibilidades que o casamento gera são excelentes.

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Análise Técnica

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Zabit Magomedsharipov é um lutador enorme para a categoria e tem uma envergadura muito vantajosa (1,85m), maior, inclusive, que a de outros lutadores altos para o peso como Max Holloway (1,75m), Yair Rodriguez (1,80m), Renato Moicano (1,82m) e o próprio Calvin Kattar (1,82). Essa envergadura longa é essencial para o seu jogo de distância na trocação.

Zabit troca da média para a longa distância, utilizando a envergadura ao seu favor e trabalhando muito bem os golpes longos e retos com as mãos, como jabs e diretos. Esse controle combinado com o kickboxing é uma de suas armas principais e possivelmente a mais utilizada em suas lutas, funcionando para controlar, inclusive, strikers mais experientes como Jeremy Stephens.

O russo tem uma variação interessantíssima de chutes e não tem receio de utilizá-los com criatividade. Os mais eficazes, como costuma ser regra no esporte, são os mais simples. Entre eles estão o chute no corpo e o low kick, esse último aplicado tanto de forma inside quanto outside (pela parte interior ou posterior da perna do adversário), dependendo de sua base no momento.

Apesar de não serem carregados de uma contundência considerável, seus chutes são bem rápidos e costumam ser precisos. As variações também vão para a cabeça e são aplicados de todas as formas, laterais, circulares, rodados e até através de impulso na grade, como Anthony Pettis eternizou contra Ben Henderson no WEC.

Esse ótimo jogo de trocação é muito bem combinado com uma movimentação bem fluída, apesar de um pouco previsível. Majoritariamente, Zabit está em sua distância mais confortável e recua quando o adversário começa uma investida, dando um passo para trás seguido de uma tradicional movimentação mais lateral, gerando um efeito circular bem eficiente para manter, além da distância, um bom posicionamento no octógono.

Mesmo sendo previsível, essa movimentação é algo muito difícil de anular, pois é preciso cortar o ring (para utilizar a expressão tradicional das competições de trocação) de forma muito rápida e precisa, além de ser necessário avançar em uma distância consideravelmente longa. Quando um lutador consegue pegar o tempo e a distância da movimentação, um golpe como cruzado ou overhand pode ser fatal, pois combina a movimentação do adversário na direção do golpe com a contundência gerada através de uma investida brusca, feita de uma longa distância e em um espaço de tempo muito curto.

Zabit definitivamente não é um lutador de pressão, que caminha para frente forçando o adversário a recuar e o acuando perto da grade, como faz Rafael dos Anjos e Chris Weidman (em seus tempos de campeão), mas ele também utiliza uma movimentação relativamente parecida quando está atacando, apesar de que com muito menos intensidade.

A movimentação é uma das principais ferramentas em seu sistema defensivo, mas quando está liderando as ações da luta, Zabit coloca uma leve pressão com curtos passos para frente. Isso não serve necessariamente para acuar o adversário, mas para fazer constantemente uma boa manutenção de distância, dificultando uma investida do adversário.

Apesar de ser um lutador franzino, Zabit tem uma força considerável na luta agarrada. Sua altura e envergadura acima da média para a categoria também ajudam muito na aplicação de suas técnicas que envolvem o clinch, as quedas e o jogo de solo. O russo sabe utilizar muito bem sua vantagem física em todos os níveis da luta.

A precisão de suas quedas pode não ser alta, mas ele compensa no volume de tentativas, algo que aconteceu em todas as suas lutas no UFC. Zabit tem uma variação interessante e tem entradas rápidas, com bom timing, e aplica sua técnica com eficiência. Cria do Daguestão, esse nível técnico no wrestling já era esperado.

Zabit tem um QI de luta bom para saber não apenas momento certo de tentar suas quedas, mas a partir de onde irá aplicá-las. Suas quedas partem desde a distância, com bons single e double legs, variando também para o clinch, independentemente da posição, pela frente, por trás ou na grade.

No chão, o nível técnico é acima da média. Zabit tem um bom controle posicional, é bem agressivo e encontra boas oportunidades para transições e passagens de guarda. Seu arsenal de finalizações é bem vasto, como mostrou nos estrangulamentos sobre Mike Santiago e Sheymon Moraes, mas especialmente com a raríssima chave de joelho sobre Brandon Davis.

O diferencial de Zabit está em sua qualidade técnica em diferentes setores da luta. O russo, além de trocar muito bem, saber controlar a distância e ter uma boa noção dos espaços do octógono, também tem um bom wrestling, com timing e ótima noção de equilibrio, e um jiu-jitsu muito refinado, com um arsenal de finalizações muito vasto e criativo. Magomedsharipov, já com ótimo nível técnico, ótimo QI de luta e apenas 28 anos, é um candidato fortíssimo a campeão mundial no curto à médio prazo.

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Calvin Kattar também é um lutador com envergadura acima da média para a categoria (1,82m) e sabe utilizá-la muito bem.  Ele se posiciona durante boa parte da luta da média para a longa distância, recuando em espaços curtos quando é ameaçado, e fazendo transições para a média e curta distância para golpear, aplicando pressão de forma linear quando está na ofensiva.

Parte extremamente predominante do jogo de Kattar é o boxe, tendo chutes como algo ocasional e a luta agarrada como uma variação bem rara. O americano tem um estilo semelhante ao boxer-puncher, com uma certa frequência no trabalho de pernas feito de forma lateral ou circular, dá uma boa importância para o sistema defensivo através da manutenção de distância, mas trabalha ofensivamente movimentando-se linearmente e aplicando golpes com contundência para amenizar o volume não tão alto de golpes. Esse estilo é bem adaptado por Kattar, que tem nível técnico o sucificiente para aplicar essas variações de movimentações e ser agressivo sem se abrir defensivamente e ser retalhado pelo adversário.

Kattar tem um ótimo jab, aplicado de forma muito rápida e com uma contundência acima da média. O direto é proporcionalmente um pouco mais lento em relação ao jab, mas carrega consigo um poder de nocaute violento. Os golpes longos e retos são aplicados da média distância, sem necessidade de avançar muito para ser capaz de conectar. Boa precisão e bom timing são características importantes para a conclusão da aplicação desses golpes dessa forma.

O jab tem também um papel muito importante no sistema defensivo do americano, que se esconde muito bem atrás dele, evitando bem os contragolpes direcionados à cabeça, e deixando sempre um golpe engatilhado para preocupar o adversário quando se está a partir da média distância.

As combinações de Kattar são um de seus pontos mais fortes, ele sabe ter volume de golpes, ser imprevisível e não se expor defensivamente. As combinações fazem variações bem interessantes entre corpo e cabeça, alternando entre golpes retos e em curva.

Kattar segue uma das tradicionais estratégias do boxe, a de bater e sair, porém no MMA isso funciona de um jeito bem diferente. Para realizar essa tática com perfeição, é necessário um posicionamento do corpo que deixa a perna da frente da base do lutador muito exposta à low kicks. Isso foi muito bem explorado pelo brasileiro Renato Moicano.

Kattar tem uma boa defesa de quedas e só foi colocado para baixo uma vez no UFC, em uma queda de Chris Fishgold aplicada com um timing perfeito, mas ainda assim Kattar caiu sentado e levantou imediatamente.

Kattar raramente tenta mudar o nível da luta, seu foco e ponto forte é realmente a trocação, mas quando o tem, investe em tentativas de quedas, geralmente com double leg, que tem um nível técnico mediano. Quando consegue quedar, ele mostra um controle posicional bem decente e tem um ground n’ pound bem contundente e agressivo, sem deixar muitos espaços para o adversário escapar sem ser golpeado.

 

Análise Tática e conclusões

Vale lembrar que, apesar de ser a luta principal, esse confronto terá apenas três rounds de duração.

Já começo apontando que as casas de apostas estão dando um favoritismo exagerado para o russo. Zabit é mais completo e tem muito mais ferramentas para pôr em jogo, mas Kattar é um ótimo boxeador, com precisão e muita contundência, o que pode trazer perigo para o russo nesses longos quinze minutos de luta.

Para que Zabit saia vitorioso, é importantíssimo que ele consiga anular as combinações de dois golpes finalizadas com um direto de direita de Kattar, que se iniciam com um jab ou um cruzado. Renato Moicano teve queixo para aguentar algumas dessas sequências, mas Shane Burgos sentiu muito e foi à knockdown, enquanto Ricardo Lamas foi brutalmente nocauteado (sem contar Chris Fishgold, que foi à knockdown com o jab, o direto sequer chegou a ser conectado).

Para Kattar, dois desafios imperam para que saia vitorioso. Um deles é conseguir anular o wrestling do russo e evitar a todo custo que essa luta vá para o chão, pois é a área em que há mais disparidade em toda a luta. O outro é lidar com a manutenção e movimentação do russo, que fará de tudo para que a trocação se desenrole totalmente da média pra longa, trabalhando golpes longos e alto volume, até encontrar uma brecha para mudar o nível da luta.

É fundamental que o russo tenha o controle de distância e consiga se manter a salvo de uma combinação surpresa, podendo dar pelo menos uma passada para trás antes da chegada do direto. Com bastante movimentação lateral, aplicação de golpes longos e retos e chutes de toda a sorte (já que Kattar dificilmente vai querer se aventurar no chão), sempre buscando uma boa oprtunidade para entrar em queda e mudar o nível da luta, Zabit tem o favoritismo para sair vitorioso.

Kattar precisa atuar com mais pressão do que está acostumado e trabalhar os golpes com mais contundência, já que sua maior chance na luta é conectar um golpe duro em Zabit e encerrar a luta. Avançando de forma linear durante boa parte da luta fará com que o americano abra menos brechas para o adversário entrar em queda, mas a missão de anular a movimentação constante do russo é tarefa duríssima.

Vejo a luta se desenvolvendo durante todos os rounds, com Zabit tendo maior controle da distância e conseguindo conectar um maior volume de golpes. Kattar deve ser capaz de conectar bons golpes durante os três rounds, mas a probabilidade de ele levar o russo à knockdown ou à nocaute não é mais alta que a probabilidade dele ser superado pelo alto volume e jogo de distância de Zabit, que deve conseguir por seu grappling em jogo e levar algum perigo considerável de finalização na luta de solo.

Apesar de todos os aspectos que podem levar a luta a um final mais precoce (principalmente um nocaute de Kattar ou uma finalização de Zabit), vejo cerca de 60% de chances dessa luta ir para a decisão. A vantagem técnica e tática pesa mais a favor do russo, que tem mais chances de sair vitorioso desse combate desafiador e extremamente qualificado.

Prognóstico: Zabit Nurmagomedov por decisão

 

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Bacharelando em Jornalismo, Analista de MMA e boxe no PitacoEsportivo.com e Nocaute na Rede. Contatos: [email protected] (via e-mail) e @kauemcd (via Twitter)
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